Todos me chamam de Mozart. Não que este nome denote alguma faculdade excepcional no ramo da música, na verdade, nem sei porque meus donos resolveram assim me chamar O que percebo é que se trata de um casal muito culto, que adora música clássica e conversa somente o essencial. Deles não tenho do que me queixar, nunca me faltou comida e água e, nas raras vezes em que estão em casa, ganho sempre um afago. Na minha condição felina, observo tudo, somente esboçando alguma reação quando esta é requisitada. Acho que é por isto que sou tão estimado nesta casa.
Não sei bem há quanto tempo estou aqui, mas logo que cheguei, eu me lembro, o homem era bastante ativo, ostentava uma farta cabeleira, caminhava rápido com passos largos o firmes e conversava em tom muito alto, gesticulando exageradamente. Por muitas vezes, me assustei quando ele defendia um ponto de vista, quase sempre sobrepujando a opinião da mulher, que se calava perante os argumentos utilizados.
Ela, desde o princípio, foi mais atenciosa comigo. Trocava minha comida e água todos os dias e balbuciava palavras de carinho, enquanto eu me roçava em suas pernas macias. A ternura de seu olhar quando encontrava o meu, me fazia ficar mole e revirar-me no chão, pedindo carinho àquela criatura tão meiga.
Mas fui sentindo que o tempo passava, através das transformações no homem e na mulher. A farta cabeleira do homem foi ficando cada vez mais curta, rala e grisalha. Seus passos tornaram-se lentos e fracos, já não gritava com tanta freqüência e, mesmo quando iria recomeçar a fazê-lo, se controlava, engolindo em seco as palavras. Suas roupas, antes surradas e poucas, foram sendo substituídas por camisas brancas, calças de cores sóbrias e, em algumas ocasiões, a gravata também era usada.
A casa foi aumentando e se tomando mais bonita, porém, o movimento de pessoas diminuiu consideravelmente, estava quase sempre vazia.
A mulher, agora, já não me dá tanta atenção como antes. Só a vejo acordar e pular da cama nervosa, tomar café correndo e sair ajeitando a blusa para dentro da saia. Quando volta, no fim do dia, abre a porta reclamando muito de dor de cabeça. Dirige-se até a cozinha, toma um copo de água, engolindo junto algo pequeno e redondo. Eu sempre a sigo miando, então ela percebe o que desejo e dispensa algum tempinho para as minhas carências. Nestes momentos, seus olhos ficam molhados e ela desabafa algumas palavras que não entendo. Logo em seguida, se levanta e vai pro quarto, de onde sai algum tempo depois com outra roupa, cabelos molhados, carregando livros e a bolsa pendurada. Vejo-a de costas saindo, está cada vez mais gorda e molenga. Então bate a porta com força atrás de si
Ele chega depois, parece sempre muito cansado e infeliz. Fala comigo, mas não me toca. Vai largando a pasta, o casaco, desabotoando a camisa e caminhando em direção a uma caixa onde passam imagens e sons interessantes. Eu também gosto de olhar para ela, pois nada me passa pela cabeça neste momento.
Quando ela chega de volta, ele e eu dormimos no sofá. Eu acordo e vejo com que desprezo ela o fita da porta da sala. Já faz algum tempo que isto vem acontecendo, mas a cada dia que passa, sua expressão é mais triste e calada. Hoje, em particular, sua reação é mais depressiva que o normal. Eu pressinto que a vida nesta casa caminha sobre uma corda de varal e que hoje isto vai mudar.
A mulher sobe as escadas e vai para o quarto. Normalmente, eu permaneceria ali, deitado sobre as pernas do homem, que ronca alto e que só irá acordar no meio da noite, limpando a baba que escorre no canto da boca e se arrastando escada acima. Mas, hoje, senti vontade de segui-la, subi as escadas, silenciosamente, como somente um gato pode fazê-lo e espiei pelo vão da porta. A grande janela estava toda aberta e uma lua enorme preenchia de luz o quarto escuro. Noite propícia para a caça de fêmeas, mas, por ser castrado, transformei-me, sim, foi na única testemunha do que estava prestes a acontecer. Minha dona, sentada nua à beira da cama, riscava alguma coisa no papel. Fiquei de longe observando. Ela chorava desconsoladamente, quando de um salto levantou-se, enxugando o rosto com as mãos, parecendo ter encontrado o remédio para a dor que a atormentava. Dirigiu-se ao banheiro.
De onde eu estava, podia escutar o barulho de água corrente e minha curiosidade levou-me até a porta entreaberta. Espiei devagar. Ela estava sentada no chão e a água caía-lhe sobre o corpo. O olhar estático localizou-me, me aproximei.
Pelo chão branco de pedra, escorriam dois rios vermelhos vertendo um de cada pulso. No rosto, uma brancura branda e os lábios trêmulos dizendo-me: - A corda rompeu! Não sustentou o peso desta vida, só a morte é meu alento.
Não me pergunte como eu entendi o que ela disse, mesmo que eu quisesse, não poderia explicar-lhe.
Ana Krüger