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P R O S A


 

Sob os olhos do gato

Todos me chamam de Mozart. Não que este nome denote alguma faculdade excepcional no ramo da música, na verdade, nem sei porque meus donos resolveram assim me chamar O que percebo é que se trata de um casal muito culto, que adora música clássica e conversa somente o essencial. Deles não tenho do que me queixar, nunca me faltou comida e água e, nas raras vezes em que estão em casa, ganho sempre um afago. Na minha condição felina, observo tudo, somente esboçando alguma reação quando esta é requisitada. Acho que é por isto que sou tão estimado nesta casa.

Não sei bem há quanto tempo estou aqui, mas logo que cheguei, eu me lembro, o homem era bastante ativo, ostentava uma farta cabeleira, caminhava rápido com passos largos o firmes e conversava em tom muito alto, gesticulando exageradamente. Por muitas vezes, me assustei quando ele defendia um ponto de vista, quase sempre sobrepujando a opinião da mulher, que se calava perante os argumentos utilizados.

Ela, desde o princípio, foi mais atenciosa comigo. Trocava minha comida e água todos os dias e balbuciava palavras de carinho, enquanto eu me roçava em suas pernas macias. A ternura de seu olhar quando encontrava o meu, me fazia ficar mole e revirar-me no chão, pedindo carinho àquela criatura tão meiga.

Mas fui sentindo que o tempo passava, através das transformações no homem e na mulher. A farta cabeleira do homem foi ficando cada vez mais curta, rala e grisalha. Seus passos tornaram-se lentos e fracos, já não gritava com tanta freqüência e, mesmo quando iria recomeçar a fazê-lo, se controlava, engolindo em seco as palavras. Suas roupas, antes surradas e poucas, foram sendo substituídas por camisas brancas, calças de cores sóbrias e, em algumas ocasiões, a gravata também era usada.

A casa foi aumentando e se tomando mais bonita, porém, o movimento de pessoas diminuiu consideravelmente, estava quase sempre vazia.

A mulher, agora, já não me dá tanta atenção como antes. Só a vejo acordar e pular da cama nervosa, tomar café correndo e sair ajeitando a blusa para dentro da saia. Quando volta, no fim do dia, abre a porta reclamando muito de dor de cabeça. Dirige-se até a cozinha, toma um copo de água, engolindo junto algo pequeno e redondo. Eu sempre a sigo miando, então ela percebe o que desejo e dispensa algum tempinho para as minhas carências. Nestes momentos, seus olhos ficam molhados e ela desabafa algumas palavras que não entendo. Logo em seguida, se levanta e vai pro quarto, de onde sai algum tempo depois com outra roupa, cabelos molhados, carregando livros e a bolsa pendurada. Vejo-a de costas saindo, está cada vez mais gorda e molenga. Então bate a porta com força atrás de si

Ele chega depois, parece sempre muito cansado e infeliz. Fala comigo, mas não me toca. Vai largando a pasta, o casaco, desabotoando a camisa e caminhando em direção a uma caixa onde passam imagens e sons interessantes. Eu também gosto de olhar para ela, pois nada me passa pela cabeça neste momento.

Quando ela chega de volta, ele e eu dormimos no sofá. Eu acordo e vejo com que desprezo ela o fita da porta da sala. Já faz algum tempo que isto vem acontecendo, mas a cada dia que passa, sua expressão é mais triste e calada. Hoje, em particular, sua reação é mais depressiva que o normal. Eu pressinto que a vida nesta casa caminha sobre uma corda de varal e que hoje isto vai mudar.

A mulher sobe as escadas e vai para o quarto. Normalmente, eu permaneceria ali, deitado sobre as pernas do homem, que ronca alto e que só irá acordar no meio da noite, limpando a baba que escorre no canto da boca e se arrastando escada acima. Mas, hoje, senti vontade de segui-la, subi as escadas, silenciosamente, como somente um gato pode fazê-lo e espiei pelo vão da porta. A grande janela estava toda aberta e uma lua enorme preenchia de luz o quarto escuro. Noite propícia para a caça de fêmeas, mas, por ser castrado, transformei-me, sim, foi na única testemunha do que estava prestes a acontecer. Minha dona, sentada nua à beira da cama, riscava alguma coisa no papel. Fiquei de longe observando. Ela chorava desconsoladamente, quando de um salto levantou-se, enxugando o rosto com as mãos, parecendo ter encontrado o remédio para a dor que a atormentava. Dirigiu-se ao banheiro.

De onde eu estava, podia escutar o barulho de água corrente e minha curiosidade levou-me até a porta entreaberta. Espiei devagar. Ela estava sentada no chão e a água caía-lhe sobre o corpo. O olhar estático localizou-me, me aproximei.

Pelo chão branco de pedra, escorriam dois rios vermelhos vertendo um de cada pulso. No rosto, uma brancura branda e os lábios trêmulos dizendo-me: - A corda rompeu! Não sustentou o peso desta vida, só a morte é meu alento.

Não me pergunte como eu entendi o que ela disse, mesmo que eu quisesse, não poderia explicar-lhe.

Ana KrügerClique aqui para voltar ao início desta página

 

Reflexão

Sou um espelho. Um velho espelho numa casa velha, quase abandonada... Na verdade, a casa está abandonada. Não reflito ninguém. Por mais que busque ângulos, não consigo encontrar alguém, mas existe alguém: uma velha senhora, tão abandonada quanto a casa e tão velha quanto eu.

Eu a vi criança, vi despontarem os seios duros no sorriso de pecado, vi desabrocharem para o pecado. Vi seios cheios amamentarem e refleti a gravidade dos bicos olhando o chão.

Já não existe a doçura, não assisto mais manhãs dengosas de alegria, nem ouço confidências amorosas. Eu, que desejava ser espelho de moto, de um motoqueiro casanova, e deleitar-me com imagens de rostos puros na garupa no caminho da sorte, ofuscar como um relâmpago os olhos de quem passasse e, principalmente, cruzar com outro espelho, fazer amor, encontrar o prazer nas projeções infinitas, multiplicar-me...

Aqui estou, inerte, sem nada para fazer, neste quarto onde os únicos movimentos que posso acompanhar são os do tecer das aranhas. Olho para uma cômoda faz vinte anos (ela, com a mesma cara de tédio desde o dia em que chegou), um quadro de casal, daqueles muito antigos, onde a noiva tenta fazer cara de feliz, sentada numa cadeira de cedro, e o noivo sabe o que vai acontecer. Vejo a mulher da casa e desconjuro o noivo, o marido do retrato, e me pergunto: Se ele tivesse morrido mais cedo, as coisas poderiam ter sido melhores?... Nunca vou saber. (Quantos anos mais terei de suportá-lo?)

Espelho de moto, tornar-me plantações, ampliar o mundo dentro de mim, ver as mudanças, ouvir as mais novas idéias, ser confidente nas noites mais loucas, ser cúmplice da vida, do remédio da alegria, refletir entusiasmo, euforia, ira, ódio, picada de orgia, de vida. Mostrar às pessoas meu mundo interior, o mistério indescritível, inexplicável. E, misteriosamente, ao contrário do que há em mim, sugar as pessoas, enfeitiçar as mulheres na cúpula do inferno, no nevoeiro da erva, na casa da volúpia desvairada.

Refleti minha loucura, criei minha própria ótica geométrica, transformei-me num corpo translúcido da difusão da luz. Na reflexão irregular mostrei minha face oculta, minha face opaca; coloquei-me frente a frente comigo mesmo, fiz o infinito, côncavo e convexo, deformei, ampliei estigmaticamente as turvas luzes da memória real das sensações virtuais, com o foco na volúpia, atingindo a refração absoluta.

A cômoda, o quadro do casal, o chão. São as últimas imagens antes da queda. Vou encontrar as luzes que propaguei no infinito: meu pensamento divergente.

Érica LacerdaClique aqui para voltar ao início desta página

 

Sinira e Serafim

Não estou em condições de discutir ou criticar nada. Entre tantos problemas sociais, fica difícil optar por uma única luta.

A educação está em DP. A saúde vai "mal', obrigada. A economia tem lá seus caminhos obscuros, como obscuras são as explicações dos economistas (aliás, esta raça possui uma linguagem própria que os torna superiores por quase ninguém os entender). Mas, segundo o professor Galdino (em sua palestra Os Animais Necessitam de Escovar os Dentes), gasta-se milhões para saber se há vida em Marte enquanto a floresta Amazônica é devastada.

E por uma ululante questão de civismo puro, ocorre-me a questão ecológica.

Lembro-me da primeira árvore que plantei: uma moeda de 10 cruzeiros, daquelas de 1983, com o mapa do Brasil (Pena que nunca brotou...).

Se hoje a idéia me é cômica, naquele dia a fiz com pomposa cerimônia. Assim foi minha estréia no parnasianismo - doce ilusão infantil.

Em 97, precisamente no dia 14 de março, estive em uma excursão na fazenda Ásia Menor, na cidade de Jaboti. Uma pequena reserva ecológica com 72 espécies de árvores de dezesseis países. Um lugar encantador que inspirava meditações. Havia ainda, em cantos estratégicos, algumas placas com mensagens sobre a natureza, todas criativas, tais como:

O homem não é dono da natureza, ele é apenas parte dela.
Luís Ribeiro C. de Carvalho  

Contradizendo um pouco a frase, o autor dela não era outro senão o "dono" da fazenda. Um homem com cerca de cinqüenta anos, rosto e gestos sérios; manso no falar e de palavras profundas. Assim que o vi, gostei de seu jeito, mas foi ouvindo-o que o admirei.

Uma visita curta mas que me permitiu um longo flashback sobre minhas breves participações ativas na ecologia: o grupo Chico Mendes, de São Sebastião da Amoreira, por exemplo... as passeatas, plantios de mudas em beiras de rios, as idéias sobre os "ovnis". A lembrança me trouxe saudades dos "Bragas", das excursões mentais à cidade de Machu-Pichu... só que neste ponto eu sempre ficava com um pé atrás (não que eu não respeite a Ufologia, mas sou meio cética sobre vida em outros mundos e outra vez faço uso das palavras do professor Galdino: "Não quero saber se existe vida lá fora deste mundo de meu Deus. Se existir - tomara que exista - que sejam mais inteligentes que nós."

A visita na fazenda já findava e, cansada, sentei-me em um banco. Um pouco mais adiante, "seo" Luís encontrava-se rodeado de professoras (a excursão foi feita por professoras do 1° grau). Ele narrava a seguinte história:

Em 1943, quando criança, resolveu querer um estilingue. O homem, segundo ele, sente em um determinado momento o desejo (não a necessidade, como nos animais irracionais) de matar.

Acontece que não havia elástico, pois todo o material era enviado para a guerra. Mas sua mãe, cuja alma possuía a sabedoria superior a tópicos, percebeu o instinto que nascia no filho e também suas conseqüências; desmanchou uma blusa do pai e com o seu elástico fez um estilingue. Mas, antes de entregar-lhe, tomou em suas mãos uma faca e o levou ao quintal onde havia um limoeiro. Neste limoeiro estava um ninho de rolinhas, com dois filhotes.

Capturando os pais, matou primeiro a fêmea e em seguida, entregando-lhe o macho, disse-lhe:

- Mate!

E ele o fez, sentindo no peito aquela sensação de poder superior que os homens sentem em relação à Natureza.

Em seguida sua mãe cortou o ninho, levou os filhotes para casa e tratou-os a cupim e farinha de milho. Como eram dois, receberam os nomes de Sinira e Serafim.

Afeiçoou-se muito aos pássaros e, quando cresceram, a mãe lhe disse:

- Rolinhas adultas têm que ganhar liberdade no quintal.

E soltando os pássaros, ainda completou, entregando-lhe o estilingue:

- Saia por aí e mate qualquer pássaro; não é crime. O senso de crime está em cada um. Mas lembre-se de que qualquer pássaro que você matar poderá ser uma Sinira ou um Serafim.

Eu ainda estava lá parada, recebendo a profunda impressão daquelas palavras, quando mais uma lembrança me assaltou: nunca pude me lembrar do exato local em que "plantei" minha moeda. Talvez seja por isto que nunca tive coragem de derrubar uma árvore. Talvez no meu subconsciente o sentido de ecologia seja o mesmo de economia. Sei que diante disso minhas razões ecológicas tornam-se bem menos virtuosas do que as do "seo" Luís, mas ao fim recebemos a mesma lição: "não destruir a natureza."

Entendem agora porque não estou em condições de criticar nada?

Elizete LourençoClique aqui para voltar ao início desta página

 

Danúbio Azul

A cada hora em que olhava no relógio, parecia-me que o ponteiro de segundos andava como o de horas e isso me deixava mais irritada. Sabe aqueles dias em que não deveríamos ter levantado da cama? É, hoje tudo indicava que seria um deles. Não agüentava mais entrevistar pessoas desinteressantes e nem o calor opressivo desta cidadezinha para onde o jornal me mandara.

Inventei uma enxaqueca terrível e saí. Entrei em meu carro e coloquei um CD de valsas vienenses. Havia percorrido todas as suas poucas ruas quando deparei-me com uma estrada que ainda não conhecia. Entrei e segui em frente, sem rumo.

Deixei-me envolver pela música alta e pelo vento que tocava meus cabelos, parecia que ele carregava todos os meus pensamentos e em minha cabeça só permanecia o Danúbio Azul.

De repente, estava parada em frente a um casarão abandonado. Um arrepio percorreu minha espinha e meu coração começou a acelerar. Eu já estivera ali... Mas de que maneira, se fazia poucos dias que eu estava na cidade? Não podia sentir-me assim, parecendo conhecer aquele lugar. Como? Quando? Interrogações surgiam em minha cabeça.

Finalmente, depois do choque inicial, meu espírito aventureiro e a paixão por ruínas e construções antigas invadiram-me. Deixei meu carro com o CD ligado alto e, resoluta, entrei no meio daqueles destroços seguindo por entre os pedregulhos e matos que estavam no meio do caminho, entre mim e aquele "sonho" abandonado. Isto... é isto... Foi em sonhos que vi aquele lugar. Esta descoberta fez crescer em mim a estranha sensação que havia sentido ao entrar na cidade a alguns dias. Enfim cheguei aos degraus da porta principal. Subi. Arranquei com as mãos umas tábuas velhas que bloqueavam-na e entrei.

Não acreditava no que os meus olhos viam... Aquele local, o hall de entrada, era lindo com seu enorme lustre de cristal iluminando-o. As duas escadas laterais estavam cobertas por um tapete vermelho e seus corrimãos dourados refletiam as luzes do lustre central. Uma música suave chegou-me aos ouvidos. Subi por uma delas e adentrei um maravilhoso salão de bailes, onde muitas mulheres, com seus longos vestidos e riquíssimas jóias sorriam, conversavam e dançavam com cavalheiros de smoking. Passando ao lado de um espelho, reparei que eu usava elegantemente um longo de veludo verde-musgo, cabelos presos ao alto e um belíssimo colar de brilhantes.

Um cavalheiro aproximou-se e convidou-me para uma valsa, que aceitei sem hesitar. O Danúbio Azul tocava enquanto eu deslizava pelo salão com aquele gentil cavalheiro que aparentava suave semelhança com... Com quem? Olhei atentamente para ele. O cavalheiro olhou fixamente em meus olhos, foi aproximando seu rosto do meu...

Neste instante, uma vozinha de criança saiu detrás de mim dizendo que eu não deveria estar ali pois o lugar estava "caindo aos pedaços". Foi quando voltei à realidade e percebi que o Danúbio Azul vinha de meu carro. Não sei o que aconteceu comigo. Aquilo seria sonho ou lembranças de um passado remoto e feliz? O salão de bailes estava vazio e solitário, com seu piso desgastado, quebrado e em pedaços; onde existira um luxuoso lustre, havia muitos fios pendurados, ornados com teias de aranha empoeiradas.

Peguei na mão daquele menino descalço, que não sei de onde surgira, dei meia-volta e segui para meu carro com uma sensação de felicidade e de haver vivido novamente um dia feliz.

Márcia ReginaClique aqui para voltar ao início desta página

 

O CARTEIRO E O POETA:
Intertextualidade com a obra "A Divina Comédia" do florentino Dante Alighieri

Para falar da intertextualidade entre as duas obras, primeiramente faremos um breve comentário sobre a obra "A Divina Comédia."

O início da "A Divina Comédia" faz referência à queda do Ser Humano, ou seja, da sua necessidade de conhecer, conviver e dominar o aspecto físico.

Dante, o Ser, parte das profundezas do inferno, ou seja, dos estados de consciência mais inferiores, em direção ao Paraíso.

O Inferno é o lugar em que nada existe, além da dor, da ira, e o Ser nada enxerga, pois o inferno é o lugar onde perdura o fatalismo e o Ser não se reconhece, nem o motivo de sua existência. Mas eis que surge o poeta Virgílio para guiar Dante em sua jornada, da mesma forma que o Ser é impulsionado pelo seu eu interior, que o inspirará. Pouco a pouco, os círculos e as imperfeições inferiores são ultrapassadas e Dante chega ao Purgatório, o nível das esperanças, reflexões e questionamentos.

O Purgatório é a morada de Virgílio; é o lugar onde o infinito é vislumbrado, e podemos constatar isto, quando Dante, ao sair do Inferno, pode enxergar perfeitamente, pois já não existe fumaça que lhe encubra os olhos. E a primeira coisa que vê são as estrelas fulgentes, eterna metáfora para o que está além, o inalcançável mas sempre buscado infinito. Vale também lembrar que é no Purgatório que Dante é ocasionalmente visitado por algum anjo, que por vezes abre as portas do inconsciente ainda que momentaneamente, para que Dante vislumbre a luz do Paraíso, fazendo com que ele perceba que existe algo além da aparência do mundo que o cerca.

Ao aproximar-se do Paraíso, Virgílio, não podendo mais guiar Dante para as esferas superiores, deixa-o aos cuidados de Beatrice, símbolo da consciência que já superou a motivação intelectual e que agora passa a seguir o impulso do eu interior. Isso faz com que o Ser, neste estado de consciência, abandone as palavras vazias para transmutar o seu pensamento para o vivenciar, o seu conhecimento para a sabedoria, o seu contemplar para o agir. Aos poucos, ocorre o estado de beatitude (Beatrizficação), permitindo a Dante o conhecimento de como se dá a união da natureza divina com a humana. E Dante, o Ser, termina sua visão banhado de Luz.

Não obstante a grande vitória de Dante, cujo destino era conhecer com profundidade os três grandes estados de consciência simbolizados pelo inferno, purgatório e paraíso, muitos são os personagens que se encontram imersos nesta busca.

No drama poético "O Carteiro e o Poeta", Mário, filho de pescador, inicialmente se encontra num Inferno imaginário, onde o modo de viver de seus antepassados causa-lhe angústia, deixando-o perdido e sem perspectiva para a sua existência. Eis que surge o poeta Pablo Neruda e Mário começa a trabalhar como carteiro, encarregado de entregar cartas ao poeta.

Com esse encontro, Mário, o carteiro, começa o seu aprendizado. Através do poeta, ele passa a contemplar o mundo (a vida, a realidade e os homens) e desta inicial constatação dos fatos cotidianos, ele passa para a reflexão do mundo, da existência e dos seres. Assim, Mário aprende que, através da observação das coisas exteriores, ele pode expressar o que está em seu interior. Temos aqui definição de literatura como "a expressão do homem e do mundo" e "como uma forma ou tipo de conhecimento."

Mário aprende também que, através de sua imaginação, os fatos que deram origem às suas observações podem "perder a realidade primitiva, adquirindo outra realidade", através de suas metáforas (No seu encontro com Beatrice, ele diz: "O seu sorriso é como asas de uma borboleta").

Mário, através deste despertar, se descobre poeta. Para ele, o mar e suas ondas, o céu e suas estrelas, os homens e..., são a sua poesia. E através de "sua poesia" começa a participar do mundo, mesmo não estando fisicamente presente. Ocorre nesse momento o processo de expansão do seu Ser, o seu estado de beatificação.

Quando Mário, em sua simplicidade, diz ao poeta Neruda que "a poesia não pertence àqueles que a escreveram mas, sim, àqueles que precisam dela," nos passa a idéia de que a poesia é universalista, participativa e gratuita ("... lá estava eu, sem rosto... e ela me encontrou.")

Neiva Irene BrunieriClique aqui para voltar ao início desta página

 

Palavras de Consolo

É, eu sei, você tentou. De alguma forma, Maria, você tentou. Mas não deu. Estamos comovidos perante a sua situação de família miserável, mas entenda, são tantas famílias que sofrem... Porque a sua, aí no finzinho do mundo, no sertão nordestino, seria privilegiada?

Espere mais um pouco, Maria. Este ano tem Copa do Mundo, todos felizes e torcendo e brigando e chorando pela Seleção. Quem sabe os corações não amolecem? Ah, veja bem, tem também as eleições... políticos bonzinhos, prestativos e querendo só o bem da população, principalmente de gente-povo como vocês.

Aí quem sabe, Maria, você e sua família não terão mais que fazer uma única refeição por dia, quando dá, quando Deus quer (ou o diabo?). Sem barrigas vazias, olhos tristes, expressão desalentada fitando um horizonte que nunca acaba, esse horizonte da pobreza...

É, eu sei, você tentou salvar seu filhinho da desnutrição, mas, infelizmente, mais um anjinho pro céu.

Fazer o quê, Maria, são tantas famílias!

Leiliane BontorinClique aqui para voltar ao início desta página

 

Puerpério

"Me disseram, porém,
que eu viesse aqui
pra pedir de romaria e prece
a paz nos desaventos..."
("Romaria", Renato Teixeira)

Paredes brancas e cheiro de desinfetante, álcool e éter enchiam a cabeça de imagens. Tantas histórias antigas; sonhos, olhares, risos; tanta vida em cada suspiro e cada suspiro diferente do que o antecedeu, do que o sucederá. Culpa. Medo. Saudade. Uma angústia desesperada! Tudo triste e ele só com frio. Já era tarde, de repente alguém gritou. Não pôde saber por quê. Se alguém perdesse um braço, ou os sentidos...

Só se alguém nascesse corado, gordo, trazendo sorrisos e cantigas de ninar, menino ou menina. Só se... Nossa!

Toda hora passava por ele um moribundo. Uma mulher trouxe uma criança no colo. Um negro de camisa branca entrou distribuindo vermelho. Alguém disse que foi tiro. "Bangue-bangue" com a polícia. Um menino tinha convulsões de cocaína. E ele, com frio e medo. Com espasmos estomacais, náusea. Só sentindo vontade de vomitar, mas, no hospital, nem de vomitar tinha coragem.

Sala de espera de hospital... Melhor seria sala de desespero!

Uma enfermeira trouxe alguns comprimidos e água. Calmante, vitamina, outro. O desesperado tirou um anti-ácido do bolso, pôs no copo e tomou o coquetel. Pediu informação, explicações, notícias do parto da paciente: mandaram aguardar. O fisioterapeuta aconselhou-o a voltar a fumar. Talvez acalmasse. Deu-lhe meio maço de Marlboro. Fumou-os.

Talvez, quem sabe, rezar...

Ajoelhou-se no chão da capela e, com uma fé de que não se sabia capaz, fez uma oração que aprendera da boca da menina mais linda do mundo. A mulher que sofria numa sala de parto.

Talvez estivesse alucinado, quase podia ouvir a voz grave do médico, cheirando a cal, dando explicações sobre a gravidez. "Coisa séria. Grave. Vai ser tumultuada. Acompanhamento." Não importa, era o filho tão esperado que vinha.

Tantas noites sonharam com a criança. Fizeram tanto amor e esperança. Demoraram a engravidar. Quando aconteceu, Santo Deus, foi uma festa! Planos e planos. Foi montado o mais bonito quarto de bebê do universo. Berço, voador, mamadeira, fraldas e fraldas e fraldas e calças plásticas e mijõezinhos e pagãozinhos e sapatinhos... e sonhos e risos. Ah!

Música, Maestro! Alegretto com vivace! Agora haveria festa e dança, mesmo que...

Houve um clarão, começou a chover e a ventar. Aos poucos foi voltando à sua mente a idéia do hospital. Sentiu-se ainda mais só, com mais frio e mais medo. Sentiu um quê de Deus flutuando no ar, com incenso, círio e música.

Requiem, Maestro. Pianissimo legatto, ma non troppo.

Pensou na Bíblia: "Crescei e multiplicai-vos." "Tu és pó e ao pó..." Tão triste...

Cantou dentro de si, com vergonha de ninguém, uma canção antiga que falava assim: "No hospital, / na sala de cirurgia / pela vidraça eu via / você sofrendo a sorrir,/ vi seu sorriso / aos poucos se desfazendo / então vi você morrendo / sem poder me despedir." Pensou na pequenina e chorou. Muito.

Chorando, saiu andando pelos corredores, escancarando as portas, vasculhando quartos, sentindo uma piedade mortal do mundo, tão triste e, de si, tão impotente. Queria esmurrar alguém. Quem? Xingar. Pedir ajuda. Colo. Queria sua mulher e sua mãe. Sua vida de "Era uma vez..." a "e foram felizes para sempre." Pra sempre em seus braços sua pequenina, linda sorrindo e se aconchegando como uma gata em seu peito... Passando os dedos finos em sua nuca e tocando o lábio em sua vida árida...

– Seu R. Acalme-se! Por favor! – A enfermeira fez-se séria e apreensiva. – Está tudo acabado. Sua mulher... Bem, sua mulher foi a... a heroína da noite. Já está no quarto e vai ficar desacordada por algum tempo, mas, no mais... Meus parabéns, papai! É um meninão.

Música! Música, Maestro! Alegro com descompostura!

E já transbordando de angústia e desespero, tombou, com um enfarto.

Renato Cordeiro

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